15 de setembro de 2011

Stênio Andrade

Namoros com a Medicina


http://3.bp.blogspot.com/-dz59rIZ1Ja0/TVQV3-mUb3I/AAAAAAAAADg/UqOrDMGd0ek/s1600/medicina-amor.jpgResta explicar, rapazes, porque ligo tanto à medicina. Ninguém, ignora que uma das ... pegas infantis mais vulgarizadas no Brasil, e talvez, no mundo, é perguntarem ao rapazinho o que ele vai ser na vida. Foi o que fizeram também comigo uma vez, eu não teria 10 anos. Fiquei atrapalhado, com muita vergonha de mim, e de repente, escapei: - Vou ser médico. Positivamente eu não tinha a menor disposição pra ser médico, nem coisíssima nenhuma. Era menino, e apenas nos poucos momentos em que largava a meninice achava bonito, desejava, confesso, ser homem grande, tomar bonde, fumar, andar com dinheiro no bolso. Vou ser médico... Para que falei tamanha bobagem! Todos acharam a resposta muito certa e nunca mais se discutiu dos meus futuros. Nem eu discuti. Fiquei certo como os outros que ia ser médico no mundo, mas jamais fiz o menor esforço para dirigir. Nem os outros, seja dito em honra dos meus bons pais. E fiquei... o diabo é que nunca pude esclarecer direito o que fiquei; e sinto sempre uma hesitação danada quando, nos hotéis, enchendo a ficha de hospedagem, tropeço no “Profissão”. Pianista? Professor? Jornalista? Crítico de arte? Folclorista? Ou mais recentemente: Funcionário público? Só me arrependo de não ter ficado médico por causa dos fichários dos hotéis. No resto, não me arrependo, porque não tenho mesmo a menor vocação. Mas aquela resposta de menino me vaia a vida inteira. Me tornei médico às avessas, isto é, doente. Mais ou menos imaginário. Sou duma perfeição prelecional no descrever os sintomas das doenças. Das minhas doenças. E finalmente a medicina entorpeceu minhas leituras. Li bastante sobre os bastidores dela, e principalmente a sua história. E quando encontro, em outras leituras, qualquer referência sobre medicina, ficho. Fichava, aliás. Por que ficava? Fichava sem saber por que fichava. Fichava por causa daquela resposta de menino e porque os instintos viciados, ignorantes das proporções e dos anos, continuam imaginando que ainda serei médico um dia.
 - Mario de Andrade

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